RELATO IV



O que houve com a vida?

Onde — e quando — foi que eu perdi o fio da meada da minha história?
Que decisão deixei de tomar? Que caminho foi esse que não segui? Será que, em algum momento, eu cheguei a acertar?

Me perco em tantos questionamentos na esperança de encontrar uma resposta que me convença de que tudo foi apenas obra do acaso… Mas lá no fundo, eu sei. A diferença está no tempo que não aproveitei — e que agora, lamento em meio a murmúrios.

Não posso dizer, com grosseria, que não houve uma gota de felicidade na minha vida. Claro que houve. Consigo contá-las na palma da mão. Mas a pergunta que me engasga é: em que capítulo minha história não saiu do rascunho?
Ou pior: se saiu… em que livro está?

Estou cansada de tentar. Tentar e tentar. Isso esgota uma alma que nasceu velha e vive cheia de cicatrizes — marcas de uma existência que mal começou e já se arrastava.

O que diabos houve com a minha vida?

São raros os dias em que não desejei ser outra pessoa. Ter outro corpo, outro país, outro nome, outro destino. Crio esses cenários na cabeça como quem constrói universos fictícios.
A criatividade é linda — quando não está ocupada em intensificar o sofrimento.

Onde foi que me perdi, meu Deus? Onde?

Estou enredada nas próprias tentativas de melhora. E o pior: não foi porque eu não quis, mas porque eu não consegui!

Desculpa… me exaltei.
É só que tudo depende de mim — e ainda assim, eu não consigo sair do lugar.

Sigo patinando.
Mesmos gestos, mesma força, mesmas tentativas de "pensamento positivo"...

Talvez — só talvez — eu realmente não mereça sair dessa coisa.
Dessa... situação. Nem sei que nome dar.

Acho que nunca saí do fundo do poço.
E, quando acreditei que havia saído, eram só miragens confortáveis. Ilusões pra que eu não morresse tão rápido.

Já li Poe mais vezes do que posso contar.
Estudei Machado. Mergulhei em tantos autores, tantas vidas, que eram tão vazias quanto a minha. A única diferença era que eles sabiam fingir.

E eu não sei fingir.

Faltam menos de trinta dias pro meu aniversário de 31 anos — e sabe o que eu absorvi da vida até aqui?
Nada.

Apenas uma sensação repetida. Um déjà vu cansado.
Tudo de novo, agora com mais medo, mais dúvida e menos esperança.

Meu olhar se recusa a ver o copo meio cheio, como a maioria finge ver. Finge tanto que se convence de que é feliz.

A felicidade…
É um breve instante. Quando chega, brilha. Mas logo depois, vai embora sem aviso.

A tristeza, não.
Ela não vai embora.

Ela se esconde. Observa. Espera.
Às vezes, te deixa vislumbrar o que é ser feliz — só pra depois te lembrar quem sempre esteve ali.

A tristeza não vem sozinha.
Traz a melancolia.
Uma dor suave e aguda ao mesmo tempo, que transborda os olhos e deságua tudo o que ficou engasgado.

E então, quando tudo se vai...
Sobra apenas ela.

A melancolia.

E eu.

Nem sei que nome dar a esse texto.

"I can't take my eyes off you"...
Estou ouvindo essa música exatamente agora.

    
    

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